sexta-feira, 25 de junho de 2010

A experiência de um bom trabalho com a comunidade e com as famílias no 3ºano

“A escola deve apoiar-se nas experiências vividas pela criança no seio da família e crescer gradualmente para fora da vida familiar; deve partir das actividades que a criança vivencia em casa e continuá-las… É tarefa da escola aprofundar e alargar os valores da criança, previamente desenvolvidos no contexto da família.” (Jonh Dewey, 1897 cit. in HOHMANN & WEIKART, 2007, p.99)

Desde que nascem, as crianças vivem num núcleo familiar que molda e fundamenta as suas crenças, atitudes e acções. E, é neste sentido que o trabalho desenvolvido pela educadora Sandra, assenta no facto de que “Para crescerem e prosperarem até serem adultas as crianças necessitam de competências para operar em duas culturas – uma que lhes dará poder e produtividade na [sua] cultura... e outra que lhes dá um significado para a vida, uma história, um lar…” (Carol Phillips, 1988 cit. in HOHMANN & WEIKART, 2007, p.99-100).
É indiscutível, até para mim que sou uma mera estagiária, que a vida familiar e todo o seu invólucro influencia o desenvolvimento de qualquer criança e, segundo o que observei a educadora reconhece a importância do papel das famílias no desenvolvimento das crianças, e quer que estas saibam, realmente, quem são, como tal procura ajudar a criança a compreender a sua própria família e, ao mesmo tempo, a aprender com as famílias das outras crianças. Recentemente, uma mãe foi à sala para realizar uma experiência, pois o seu filho estava a desenvolver o projecto da electricidade e a educadora incentivou a mãe a vir à sala e interagir com o grupo realizando com eles uma actividade referente ao projecto. Esta mãe é muito protectora, muito “galinha” como se costuma chamar, e, não deixa que o filho experimente muitas coisas novas, porque tem medo, no entanto, naquele momento, na sala ela tornou-se uma mãe que em parceria com o filho explicou ao grupo cada passo da experiência, sendo sempre muito atenciosa e deixando que o seu filho a ajudasse, o grupo parecia «hipnotizado» a observar atentamente o que se estava a passar. Perante esta situação a educadora comentou comigo que tinha ficado estupefacta, pois nunca pensou que esta mãe fosse assim, tinha uma ideia contrária àquela que observou, e, explicou-me a importância destes momentos para romper com os preconceitos e estereótipos. Uma outra situação foi o pai de uma menina que em casa construiu uma instalação eléctrica, pois pensava que o projecto da electricidade era para a criança fazer em casa com eles, a educadora aproveitou isso para o convidar a ir à sala e mostrar ao grupo o que havia e

explicar-lhes o procedimento. Segundo a educadora, “- Só custa até vir o primeiro depois incentivam-se uns aos outros.”. Eu, pessoalmente, admiro muito a relação que esta educadora estabelece com os pais, pois quando estes têm problemas do foro conjugal que afecta os filhos, não têm problemas em expor o seu problema e pedir ajuda a educadora, e isto, na maioria das vezes, não acontece é mais frequente a educadora saber o que se passa nas conversas de corredor do que propriamente pelos pais e aí verifica-se uma lacuna na parceria com as famílias e na continuidade da educação. Desta forma, verifica-se que a família e a escola são dois contextos diferentes com um objectivo comum, visto que pode ser somente na escola que a criança tenha oportunidade de discutir com o companheiro sobre a posse de um objecto, no entanto quer na escola quer em casa poderá fazer uma refeição, só em casa poderá ver televisão, porém em ambos os locais terá de arrumar os brinquedos cada vez que acaba um jogo. Assim, “Como não poderia ser de outra maneira, a interpretação que vai fazendo do mundo, das suas regularidades, das normas que o regem e do papel que desempenha reflecte naquilo que se encontra em ambos os contextos.” (BASSEDAS et al, 1999, p.282-283), esta entrada na escola traduz à criança uma ampliação que lhe poderá trazer “(…)diferenças pouco significativas entre o que acontece em casa e o que acontece na escola…[ou] farão surgir pequenas divergências e algumas discrepâncias serão abertas.” (BASSEDAS et al, 1999, p.283). Neste sentido, torna-se, na minha opinião, indispensável a edificação de uma relação construtiva e estável, entre a escola e a família, sendo a convivência o elemento primordial, na medida em que é através dela que se estabelece a confiança, que se conhece o eu de cada pessoa, que se observa as suas atitudes e comportamentos. A partir do que observei, a educadora Sandra interage muito com os pais convivendo com eles, não só no momento de acolhimento, mas também nas festividades, ela «pega» no Dia do Pai, no Dia da Mãe, no Dia dos Avós, na Páscoa, no Natal, nas reuniões e faz actividades com as famílias como se fossem eles as crianças e fá-las com eles, distribuindo-se por cada família, dando atenção a todos e falando um pouco com todos e, é aqui, que nós como futuras educadoras devemos «pegar» é nestas alturas que teremos a oportunidade de passar o dia com as famílias e mostrar quem somos e naquilo que acreditamos. Em cada festividade as famílias almoçam no colégio com as crianças, este ano, no Dia do pai, a educadora realizou um


jogo de futebol com os pais e um piquenique no exterior do colégio, no Dia dos avós realizou uma actividade plástica que consistia em fazer um desenho com recortes sem utilizar a tesoura, no Dia da mãe realizou actividades no exterior como bowling, acertar com bolas dentro dos buracos, acertar com arcos na garrafa e um piquenique num parque perto do colégio. Estas interacções permitem à educadora aproximar-se de cada família e transmitir-lhes quer segurança quer confiança, não pondo de parte a importância de compartilhar critérios educativos, visto que estes são capazes de minorar ou até mesmo eliminar as discrepâncias que podem ser prejudiciais às crianças. A própria instituição – Colégio do Vale – esforça-se muito para edificar uma escola adequada para as crianças e, de facto têm conseguido gerar muitas modificações. Porém, para a educadora Sandra o mais importante assenta no contacto entre si e a família, pois ela sente que para saber como é a criança, quais os seus ritmos, quais as suas pessoas de referência, o que lhe agrada e o que não lhe agrada necessita de contactar com os pais, pois a entrevista inicial não lhe permite constatar tudo o que rodeia a criança, visto que nesse momento existe entre o educador e a família um desconhecimento mútuo, que limita a entrevista. Quando consegue estabelecer uma relação de parceria com a família, a educadora procura estabelecer critérios educativos comuns, de modo a “(…)favorecer a transição da criança de um contexto para o outro, a coerência do que se pede a ela ou do que se proíbe, o que favorece, em uma só palavra, o seu desenvolvimento.” (BASSEDAS et al, 1999, p.286). É importante referenciar que a mãe, o pai e a educadora, muitas vezes, actuam de forma diferente perante a mesma manifestação da criança e, na minha perspectiva, isso acontece porque interpretamos de maneira diferente, aquela manifestação ou aquele comportamento e daí ser fulcral a conversa entre a família e o educador, para que não haja estas lacunas que só prejudicam a criança. Com o intuito de combater estas lacunas a educadora Sandra procura marcar uma reunião com as famílias e conversar com as mesmas sobre esses assuntos, pois tem conhecimento que, segundo Brazelton & Greenspan (2002, p.182), “As experiências familiares deveriam proporcionar a uma criança de determinada idade todo o leque de experiências adequadas ao seu desenvolvimento. Isto significa trabalhar com a criança a partir do nível em que ela está e ajudá-la a subir os degraus da escada do desenvolvimento. Para as crianças, em geral, deveria ser reservada uma fatia de não mais do que um terço do tempo que a criança passa acordada (actividades

extracurriculares, brincadeira e outras actividades programadas) para actividades independentes, ficando os outros dois terços reservados para a família. Estes dois terços deveriam ser usados para facilitar a compreensão e a mestria do mundo que a rodeia e para conversação e brincadeiras interactivas.”, ou seja, a criança necessita de estar diariamente com os pais, desenvolvendo com este brincadeiras adequadas ao seu nível de desenvolvimento, pois estas “(…)proporcionam as bases de segurança contínua de que ela precisa e mantêm a confiança necessária para quando as coisas não correrem bem.” (BRAZELTON et al, 2002, p.182), as crianças precisam de falar com pais sobre a escola, os amigos e as suas dificuldades, e nestas conversas é muito importante criar empatia com a perspectiva da criança, mesmo que não concordemos com ela, e são “ (…) os pais [que] devem mostrar-lhe que a compreendem e procurar experiências próprias para lhe mostrarem essa compreensão antes de tentarem em conjunto resolver o problema, procurando a melhor solução.” (BRAZELTON et al, 2002, p.183). Tudo isto implica que o tempo que é passado em família seja caracterizado pela disponibilidade dos pais, e é esta perspectiva que a educadora procura transparecer para os pais quer nas reuniões informais, quer nas formais, quer com o seu exemplo como mãe.
A educadora transmite, regularmente, aos pais a forma como a criança age com os adultos e com os companheiros, de forma a ajudar os pais a ver a criança numa outra perspectiva, e num desses casos a educadora constatou que uma menina que na escola é um “anjinho”, muito sossegadinha, em casa é mais inquieta e tenta marcar a sua posição, o que não faz na escola, sendo nesta etapa que a criança “ (…) está começando a ser ela mesma, a diferenciar-se das outras e a construir a sua própria identidade.” (BASSEDAS et al, 1999, p.286), como tal ao referir-se à criança a educadora tem o cuidado de substituir o verbo, isto é, não diz «- A Margarida é…», mas sim «- A Margarida mostra-se…» ou «- A Margarida está…», deixando assim a possibilidade de existirem mudanças e de aceitar o facto de a criança ser de maneira diferente, isto trata-se de um conhecimento progressivo e mútuo.
Falando um pouco da Sandra e do seu eu, envolver os pais na sala de actividades é um objectivo muito importante na sua prática educativa. A Sandra tem consciência de


que a vida das crianças será superior à medida que a interacção entre ela e os pais também for maior, sentindo a necessidade da cooperação destes no jardim-de-infância, envolvendo não só os pais, mas também os avós, os primos, os tios… Não permitindo que estes fiquem à porta, pois, segundo a Sandra, «- As famílias precisam de se interessar pela vida do jardim-de-infância, pelo que acontece na sala e pelo desenvolvimento das suas crianças.». É importante referir que todas as manhãs, no momento de acolhimento, a Sandra dedica alguma atenção aos pais, quando eles vêm trazer os filhos, procurando colaborar com eles. E mostrando-lhes que está interessada quer no bem-estar quer no desenvolvimento de cada uma das crianças, e ensina tanto aos pais como aos avós formas correctas de educar as crianças sem os fazer sentir inadequados. A Sandra dá, também, muito valor ao que as crianças trazem de casa, por exemplo, certo dia uma criança trouxe uma pernada de uma azeitoneira, um limão acabado de nascer e a Sandra deu continuidade às explicações da criança ao grupo. Uma das situações que me marcou, de forma muito positiva, foi o facto de a Sandra dar ênfase a quaisquer acontecimentos domésticos, como um pai ou uma mãe que conta uma história a filha, ou por exemplo o caso mais recente, uma criança que deixou de dormir numa cama com grades. A Sandra aconselha os pais, sempre que estes a solicitam, dando as suas opiniões. É uma pessoa sensível e sempre atenta ao que a família tem para dar e sabe que as crianças têm necessidade de ter orgulho nas famílias e constrói esse orgulho valorizando as contribuições que as famílias dão.
Na minha opinião, a participação dos pais é muito importante, pois são eles os primeiros educadores e professores da criança, são os primeiros a desempenhar um papel relevante no desenvolvimento e no processo de aprendizagem das crianças. O seio familiar é o primeiro meio de aprendizagem de qualquer criança daí que a participação dos pais para as crianças traduza “(…) Efeitos positivos sobre os resultados escolares; Efeitos positivos sobre a auto-estima e sobre a motivação para a aprendizagem.” (BRICKMANN & TAYLOR, p.240), para os próprios pais gera uma “(…) Melhor compreensão do desenvolvimento da criança, do papel dos pais e da educação; alargamento a várias pessoas da «rede» de apoio ao desenvolvimento da criança.” (BRICKMANN & TAYLOR, p.241) e para os próprios educadores contribui para uma “(…) Maior compreensão e apoio dos pais às estratégias, aos procedimentos e às actividades

da escola e do programa educativo; maior número de pais oferecerem-se para colaborar com a escola.” (BRICKMANN & TAYLOR, p.241). Para cativar a participação dos pais a Sandra procura, primeiramente, definir os objectivos, para que haja um base no programa, em segundo lugar, organizar actividades, promovendo a interacção e, posteriormente, fazer um balanço, isto é, avaliar os acontecimentos e por fim, ajustar, expandir as actividades destinadas a obter e expandir a participação dos pais. Para os pais mais ocupados a Sandra procura divulgar com alguma antecedência as actividades especiais, faz gravações vídeo das actividades na escola e empresta-as para as famílias as verem em casa com as crianças, organiza fotografias e coloca-as no caderno com momentos da rotina diária, visitas de estudo e de acontecimentos especiais, pede ajuda aos pais e fá-los sentir úteis quando participam.
Deste modo, verifiquei que a educadora procura compreender as culturas de origem das crianças, criar relações abertas quer entre os adultos quer entre as crianças, influenciar de forma positiva o modo como as crianças vêem, ouvem, compreendem e aprendem em interacção umas com as outras e dar a cada criança a oportunidade de agir com confiança e respeito segundo as suas decisões e capacidade de compreensão. É de salientar, que no seu núcleo familiar cada criança aprende hábitos de interacção diferentes e, que o facto de fora de casa as pessoas poderem falar de outra forma, poderá tornar-se confuso para a criança e é aqui que a educadora procura dar apoio, pois as crianças desenvolvem-se melhor num ambiente em que se sentem apoiadas.
O Modelo de trabalho da Sandra é o movimento da escola moderna e, como tal, este modelo “(…)requer uma forte articulação com as famílias, com os vizinhos e as organizações da comunidade para que vários dos seus elementos se assumam conscientemente como fonte de conhecimento e de formação para o jardim-de-infância.” (NIZA, p.19). Desta forma, a Sandra procura realizar uma visita à comunidade todos os meses, essas visitas, normalmente, surgem a partir dos projectos, participei apenas em uma visita, pois as restantes sucederam à sexta-feira, era uma exposição de ilustrações de livros finlandeses, onde as ilustrações eram feitas por meio de colagens, cortadas com as mãos, ou seja, sem utilizar a tesoura. Havia uma senhora que ia contando a história dos livros e havia partes lúdicas para as crianças brincarem,


no entanto, acabaram por dispersar um pouco. Recentemente, as crianças saíram para ver uma peça de teatro denominada “João pé de feijão”, pois houve uma criança que trouxe a história para a sala e as restantes também tinham o livro, como a peça estava em cena, a educadora aproveitou para interagir com a comunidade. Programadas estão as visitas ao quartel dos bombeiros, ao dentista, à frutaria e ao museu da electricidade, todas estas visitas, excepto à frutaria, surgiram a partir da realização de projectos impulsionados pelas crianças, pois estão a decorrer na sala o projecto dos dentes, o projecto da poluição e do fogo e o projecto da electricidade.
Em suma, a família e a comunidade desempenham ambas uma função fundamental. Este modelo promove uma articulação com famílias, vizinhos e organizações da comunidade por considerar estes parceiros fonte de conhecimento e formação. Por um lado, os pais participam regularmente no jardim-de-infância, além de serem “(…) convidados trimestralmente a participarem numa reunião de balanço que decorre da exposição das produções e dos registos de planeamento e de avaliação do grupo de crianças de uma sala” (NIZA, 2007, p.140). Por outro lado, as famílias são também convidadas a participar em sessões de animação destinadas a elas, sendo os seus elementos igualmente interpelados nos espaços comunitários durante visitas de estudo; nas respostas a inquéritos feitos pelas crianças; e na cedência de documentos para estudos feitos pelas crianças. Em relação a esta última, verifica-se então que as crianças pedem muito a colaboração na realização dos seus projectos, recolha de informações a ser trabalhadas na sala, convidam pessoas que queiram partilhar experiências, contactando directamente com elas. Esta situação possibilita trocas de informação e entreajuda, onde a escola ganha valor social de pertença. Os encontros entre pais e educadores servem também para garantir o desenvolvimento educativo dos filhos de modo participado e dialogante. De acordo com Niza (2007), “Conta-se com o envolvimento e implicação das famílias e da comunidade, quer para resolver problemas quotidianos de organização, quer para que o jardim-de-infância possa cumprir o seu papel de mediador e promotor das expressões culturais das populações que serve” (p. 140).

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